sábado, 29 de novembro de 2008

A morte de Marat de Jacques-Louis David: A pietà revolucionária

Um pintor nao devia pintar o que vê, mas o que será visto – Paul
Valery

David e o Classicismo histórico


Até o século XVIII, os principais temas abordados eram os mitos gregos e as narrações bíblicas. Com a revolução francesa, o momento de transformação parece tão digno de ser representado quanto um tema grego ou religioso. Neste contexto Jacques-Louis David parece ouvir as frases do posterior pensador francês Paul Valery, perpetuando através não só na evocação de imagem, mas na forma escolhida de representar, os ideais de uma época.

Como toda arte que busca inspiração nos clássicos, o momento vai ser marcado por fortes críticas aos estilos anteriores: o barroco e o rococó. A técnica “não deve mais ser inspiração, habilidade, virtuosismo individual, mas um instrumento racional que a sociedade construiu para suas necessidades” (ARGAN, 1992).

Retomando as artes clássicas já consagradas David, que passou de 1774 a 1780 estudando a arte italiana em Roma, dá as cartas do que seria a pintura classicista histórica. As escavações arqueológicas das cidades de Herculano Pompéia vieram a suscitar a ascensão do clássico, lançando uma verdadeira moda na época, uma espécie de classicismo arqueológico que adentra as casas de uma burguesia em ascensão. Viagens à Itália tornam-se uma verdadeira obrigação para uma boa educação.

As obras de David são conhecidas pela sua rigorosidade e austeridade. Era considerado um poussinista mais poussinista que o próprio Poussin. Sua obra assim como a do antecessor é extremamente acadêmica, mais preocupada com a forma que com a expressão da cor. Poussin dizia que: “As cores na pintura são, por assim dizer, engodos para seduzir os olhos, como a beleza dos versos na poesia é uma sedução para o ouvido” (ARNHEIM, 1998). Os dois artistas estudaram a arte romana in loco e preencheram suas obras com as anatomias idealizadas dotadas do rigor estático de uma escultura.

David era um revolucionário, amigo de Robespierre que votou pela decapitação de seu Rei e agiu e colocou sua obra em favor da propaganda republicana, realizando pinturas e eventos com forte apelo popular. Quando Napoleão chega ao poder coloca David com pintor oficial do império. Ambos se admiravam mutuamente. Ele constrói a identidade artística oficial deste novo momento que de tão importante merecia registros de igual relevância.


A Morte de Marat


A morte de Marat é um exemplo de quadro que serviu aos ideais revolucionários, os ideais civis, sendo até chamada de “Pietá da revolução”. O quadro foi pintado em 1793, um pouco depois de infortúnio. Marat tinha uma doença grave que exigia que ele ficasse por muito tempo na banheira. Por isso lá mesmo sobre uma tábua fazia seus escritos revolucionários. É neste cenário que uma fanática girondina, Charlotte Corday, fazendo-se passar por aliada, pede que ele assine uma petição falsa e no momento em que ele está prestes a fazê-lo ela o mata.

A morte de Marat é uma obra em que pode-se apontar diversas influencias tendo em vista que se sua base fosse somente estruturada pelo clássico não passaria de um mero saudosismo sem maiores pretensões.

Mesmo o neoclassicismo tendo uma grande crítica aos estilos anteriores, como excessivos e imaginativos demais é na Morte de Marat que nota-se profundamente a influencia de Caravaggio no contraste do cheio e vazio, do claro e escuro, porém sem a penumbra que impede a expressão da forma.

A espacialidade é rasa e vai direto ao ponto. Direto ao flagrante histórico com apenas os componentes essenciais. A linha que divide o quadro entre a representação e o vazio é influência do horizonte da renascença (época em que também se reviveram os clássicos) que separa o céu e a terra. Uma disposição geometrizada e simplificada mostra distanciamento do passional característico do barroco de linhas diagonais e do simultâneo romantismo. A luz é teatral, mas sem ser sobrenatural modelando o corpo do mártir. A textura é lisa e prima pelo desenvolvimento da forma em detrimento do virtuosismo que a pincelada poderia ter.

No quadro, e é característica da obra de David, existe uma maior preocupação da forma do que com a expressão da cor. A forma serve aos ideais de racionalidade e intelectualidade na arte enquanto a cor serve a expressão dos sentimentos traduzindo em emoções.

Fica mais fácil perceber o caráter mais frio da tela quando se compara a obra de David com outras posteriores que abordam o mesmo tema. As versões de Paul Jacques Aime Badry e Jean Joseph Weertz representam de maneira mais emotiva o fato. Ambos mostram o momento depois do assassinato e incluem a personagem que assassina o revolucionário. O primeiro pintado em 1860 mostra cenário com muito mais elementos. A arma permanece no corpo da vítima que demonstra vida na mão que segura a banheira e na face de dor de sofrimento. A cena é vista de um ângulo que deixa a representação de Marat numa posição de escorço complicada. No segundo, a assassina ainda segura a arma do crime. O povo francês adentra pela porta representado por figuras indignadas e desesperadas, o claro se contrapõe em demasia com o escuro sendo a transição uma penumbra que não delineia muito bem as formas. O corpo de Marat está em posição pouco convencional lembrando um Cristo na descida da cruz. A composição é confusa e carregada de emotividade.

David não faz comentários sobre o acontecimento. Sem o sofrimento ou a violência do assassinato o artista apresenta o fato, irremediavelmente trágico, que basta por si só para comover. O espaço da comoção fica somente em quem observa a verdade representada. Sobre isso Gombrich (1885) coloca: “A situação não parece prestar-se a um quadro de dignidade e gradeza, mas David consegue fazê-lo parecer heróico, sem deixar, no entanto, de respeitar os detalhes concretos de um registro policial”.
Nota-se também a Influência da pintura flamenga e holandesa no que tange a significação que ganha cada gesto, porém no lugar do gesto cotidiano é elevado o gesto histórico. As Dimensões e escalas entre a mão, o punhal (arma do crime) e a pena (arma do revolucionário) são precisas. A obra gira em torno das mãos, elas que contam a história. Deixam seus vestígios espalhados pelo quadro em objetos utilizados tanto por ele quanto pela assassina. A carta nas mãos doe Marat representa sua bondade e solidariedade, que o faz morrer pela causa. Pode-se ver as veias da caixa que como uma lápide determina o limite do quadro e abriga a inscrição de homenagem do artista ao amigo.


Respostas e ecos da obra de David


O estilo que David pregava não era o único que se desenvolvia. Ao lado do estilo clássico de David coabitam os românticos, que dentro de todo aquele fervor político reagem a este estilo frio, colocando em suas obras apelo emocional influenciado pelo barroco. Destacam-se nomes como Antoine Jean Gros, Théodore Gericault, Eugène Delacroix e Honoré Daumier.

Eles questionavam como era possível ficar passível diante do que estava acontecendo no mundo. Como não imprimir este sentimento nas suas obras? Enquanto para os pintores neoclássicos era necessário que se exaltasse o racionalismo do homem, para os românticos o fervor da revolução despertava todo o vigor emotivo e interpretativo de estilos passados. Duas maneiras diferentes de se reagir a uma mesma situação que tanto ilustra o momento de instabilidade que a Europa atravessava.

Parte das idéias da obra de David serão continuadas por seu discípulo Ingres. Apesar de inicialmente não seguir a risca os passos de seu mestre tornou-se seu seguidor e sucessor mais importante. De formação acadêmica, não simpatizava com o bonapartismo o que o fez morar na Itália por 18 anos onde estudou principalmente a obra de Rafael. Só no seu retorno volta para a trilha de seu mestre tornando-se abertamente opositor do estilo romântico. Seu ideal perseguido seguia o caminho de Poussin e David da pintura histórica, mas sua notabilidade era vista principalmente nos seus retratos de cunho interpretativo.

David estipulava o que era a arte oficial, mas o modelo não era hegemônico pois dentro da história da arte não cabia mais que o pêndulo que oscila entre o racional e o emotivo pendesse apenas para um lado. O romantismo responde com cor à preocupação de David com a forma. David quer parras os ideais, os românticos expressar os sentimentos da época.

4 comentários:

RAMON(ES) disse...

Vou fingir que eu entendi tudo e que sei sobre esse assunto.
:)

M. disse...

Idem

Anônimo disse...

Olá, boa noite!

Decidi deixar o meu testemunho, visto que, e desde já peço desculpa pelo pseudo-plágio a que me sugeitei desde o momento em que retirei parte deste post para um trabalho final sobre a mort de marat, tenho sem dúvida de dar os meus parabéns ao autor/a pois de tantos textos que já li ao longo de meses de pesquisa, foi o único que me agarrou de tal forma que me levou a utilizá-lo como fonte do meu trabalho.
Continua o excelente trabalho.
Boa Sorte.

Nanna

Anônimo disse...

Bom, axei bem interessante.....Se eu tivesse pesquisado um poukinho antes teria me ajudado no meu trabalho.........